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Pandemia atrasa recuperação do apoio marítimo
Pandemia atrasa recuperação do apoio marítimo

Ainda na sombra da crise de 2015, o mercado de apoio marítimo brasileiro sofre com cancelamentos, renegociações e suspensões de contratos, taxas diárias reduzidas e custos operacionais elevados devido à pandemia de Covid-19.

 

Atualmente, cerca de 60 das 331 embarcações de bandeira brasileira em operação estão sem contrato. Considerando a frota de bandeira estrangeira, 364 embarcações de apoio estão na costa brasileira – redução de quase um terço ante o número de 2015, de 500.

 

Resultado de crises acumuladas, a situação da frota no Brasil tem raiz na crise institucional da Petrobras, com a operação Lava Jato, e na queda do preço do barril de petróleo em 2015, avaliou, em entrevista à Brasil Energia, a vice-presidente executiva da Associação Brasileira das Empresas de Apoio Marítimo (Abeam), Lilian Schaefer.

 

O mercado esperava que este fosse um ano de recuperação da demanda, mas já em janeiro houve um novo movimento de queda do preço do barril, com as empresas internacionais recalculando os seus planos de negócios e, na sequência, a pandemia. “É um misto de todas essas crises que o setor vivencia desde 2014. Não podemos atribuir essa ociosidade de frota exclusivamente aos efeitos deletérios da pandemia”, diz Schaefer.

 

A pandemia, no entanto, atrasou a expectativa de recuperação. Para o presidente da Abeam, Luis Gustavo Bueno Machado, o equilíbrio entre oferta e demanda deve vir apenas entre o segundo semestre de 2022 e o primeiro de 2023, segundo as projeções de mercado atuais.

 

De acordo com o diretor Comercial da DOF Brasil, Elias Abibe, o número de embarcações em operação no Brasil não deve cair mais do que o patamar atual. Hoje, a expectativa é que haja crescimento na demanda com os investimentos da Petrobras e de IOCs, como Equinor, Total e ExxonMobil, ressaltou.

 

Apesar do corte de 37% em seus investimentos planejados entre 2020 e 2024, a Petrobras tem movimentado o mercado de FPSOs com o lançamento de licitações para o desenvolvimento de Búzios, além de iniciar o licenciamento ambiental para a 4ª etapa de desenvolvimento do pré-sal.

 

A estatal é a principal contratante de embarcações de apoio no Brasil, com 219 barcos afretados. Em março, como resposta aos efeitos da pandemia na indústria de O&G, a Petrobras deflagrou duas ondas de renegociação de contratos como medidas de resiliência.

 

“A primeira foi aplicada indiscriminadamente, para todas as empresas e tipos de barcos, implicando em diferimento de pagamento de receitas e alguns cancelamentos antecipados. Menos de um mês depois, a Petrobras aplicou uma segunda onda mais específica para embarcações do tipo PSV”, lembra Schaefer.

 

A DOF Brasil, que tem uma das maiores frotas de AHTS no país, foi uma das empresas que renegociaram com a Petrobras. A companhia teve dois contratos cancelados com a estatal, que previam a rescisão antecipada.

 

Soma-se às renegociações e aos adiamentos de projetos – fruto da revisão de capex das petroleiras –, o aumento de 30% nos custos das empresas, associados à pandemia, segundo estimativa da Abeam.

 

 

Além disso, o cenário de sobreoferta de embarcações também teve efeito de redução das taxas diárias, de pelo menos 25% a 30%, de acordo com o gerente da DOF Brasil, empresa do grupo DOF. Embora as taxas tenham sido reduzidas significativamente, é difícil precisar o quanto porque as contas são muito individualizadas.

 

Impactados pelo cenário global, os armadores Siem, Solstad e DOF registraram prejuízos operacionais de aproximadamente US$ 241 milhões, US$ 110 milhões e US$ 19,5 milhões, respectivamente, no segundo trimestre deste ano. Em relação ao período anterior, apenas a DOF conseguiu reduzir as perdas, enquanto Siem e Solstad viram seus prejuízos crescerem em 90% e 80%, respectivamente.

 

Com o caixa prejudicado, as empresas devem ainda arcar com o pagamento dos financiamentos para expansão da frota de apoio marítimo brasileira. O Fundo da Marinha Mercante (FMM) é a fonte principal de financiamento, com o BNDES como seu maior agente financeiro, repassando em média 70% dos recursos a partir de 2007, segundo estudo do banco publicado em março.

 

O saldo devedor da carteira de apoio marítimo do BNDES é de R$ 17,1 bilhões, informou o banco via assessoria de imprensa. Destes, R$ 1,33 bilhão deve ser pago neste ano – sendo que R$ 1 bilhão já foi liquidado – e R$ 2 bilhões são esperados para 2021.

 

A diferença entre os valores esperados para 2020 e 2021 decorre de boa parte da carteira de apoio marítimo ter aderido à suspensão temporária, por até seis meses, de pagamentos de principal e juros da dívida (stand still) oferecida pelo BNDES com o objetivo de mitigar os efeitos da pandemia de Covid-19 no Brasil.

 

A extensão do programa de stand still é um pleito da Abeam. À Brasil Energia, a vice-presidente executiva da associação ressaltou que o programa do BNDES foi bem sucedido e que não há expectativa de inadimplência no setor. A nível institucional, a Abeam tem trabalhado, junto a agentes financeiros e ao Ministério de Infraestrutura, para que os stakeholders “consigam enxergar a necessidade de fôlego que as empresas precisam nesse momento de pandemia e pós-pandemia”, diz Schaefer.

 

Para o diretor da DOF Brasil, o mercado tem que achar um ponto de equilíbrio. “As empresas estão se esforçando ao máximo para não ficarem inadimplentes, as contratantes têm que entender que não se sobrevive com essas taxas tão baixas e os bancos têm que entender que tem que se dar uma ajuda”, destacou.

 

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